Cinema e teatro: atividade privada? (23/01/2008)
Os ingressos para teatro e cinema ficaram mais caros em 2007. Subiram acima da inflação. Os dados completos podem ser vistos em matéria da Folha de São Paulo deste domingo, 20/01.Certamente uma das razões desse aumento é o bom momento da economia brasileira. Com mais emprego e melhores salários há mais dinheiro em circulação e, portanto, segundo a velha lei (?) da oferta e da procura, os preços tendem a subir.
Os “produtores culturais” apontam outra causa: a meia-entrada - que, dizem, é concedida a 70% a 80% do público que vai aos teatros e cinemas: “Instituir a meia-entrada é fazer caridade com o chapéu alheio”. Bruno Wainer (produtor de “Meu nome não é Johnny”) vai além, dizendo que “é uma clara interferência do poder público numa atividade privada”.
Há vários elementos nessa história toda. É inegável que o aquecimento da economia interfere nos preços, assim como a meia-entrada e, também, um certo desequilíbrio, que já vem sendo corrigido, nas políticas de fomento à produção, distribuição e de exibição de cinema no Brasil. A meia-entrada provavelmente adicione ao mercado teatral e cinematográfico um público novo ou, melhor dizendo, um público com pequenas possibilidades de participar dele de outra maneira.
Concentremo-nos no caso do cinema. Se fosse verdade que a “ingerência” do poder público em um negócio privado era algo pernicioso, o mesmo produtor que fez essa reclamação teria recusado o dinheiro público para a a sua produção. Quando se observa o cartaz desse mesmo filme (e de praticamente todos os outros nacionais exibidos nos últimos cinco anos), encontraremos as logomarcas da Petrobras, BR distribuidora, BNDES, Banco do Brasil, Lei do Audiovisual/ANCINE, Lei de Fomento à Cultura/ANCINE, Brasil, um país de todos/Governo Federal, o que demonstra que o Estado tem participado ativamente do ciclo de cinema, inclusive para que o filme dele pudesse chegar às telas do país e ser o mais visto nas últimas semanas. Ou seja, não se pode reivindicar o fomento público a fundo perdido e demonizá-lo quando se trata de facilitação do acesso.
Não recuso a idéia de rever a política de meia-entrada, mas é preciso que antes ela seja mais bem compreendida. A meia-entrada é um princípio acanhado de universalização do acesso aos bens culturais e tem como fundamento a idéia de que a cultura é um direito básico de cidadania e não um mero serviço ou benefício. É preciso, porém, corrigir distorções nas emissões das carteiras de estudante e combiná-la com uma política de difusão mais planejada e eficiente. É muito interessante, por exemplo, que se observe a necessidade de multiplicarmos rapidamente o número de salas de cinema no país e incentivar a concorrência entre os exibidores. Não é a concorrência a alma do capitalismo? Pois é… Como no Brasil o capitalismo é uma invenção do Estado…
Segundo estudos de Frederico Barbosa, do IPEA, o “consumo” de audiovisual no país hoje é restrito às classes A e B. Imagino que isso tenda a se agravar com o notório aumento das salas de cinemas em grandes shoppings e sua evidente diminuição nos centros das cidades. A soma desse deslocamento ao “modelo multiplex” de exibição certamente contribui para essa concentração. Além da concentração nos shoppings, há também uma concentração em grandes cidades. Em 2004, no estado de São Paulo, menos de 20% das cidades tinham ao menos uma sala de cinema e 25% uma teatro. Qual é o quadro no restante do país?
A questão, portanto, é mais profunda. A ANCINE já tem buscado compatibilizar melhor o financiamento à produção cinematográfica com melhores condições para distribuição e exibição. Afinal de contas, não se pode financiar a produção de montes de filmes para que ninguém assista. É preciso apoiar bons filmes e acelerar a busca por esse equilíbrio, caso contrário, a “audiência” dos filmes nacionais continuará caindo ano a ano.
No caso do Teatro, há aspectos mais complexos. Trata-se de uma atividade historicamente circunscrita às elites do país. Uma parte ínfima da população tem por hábito a fruição regular das artes cênicas e, se tirarmos os eventos e as episódicas campanhas de popularização, teremos um estrato de público altamente concentrado em termos sócio-econômicos. Provavelmente o povo queira ir ao teatro, mas temos que construir políticas de gestão da cultura como direito. Temos que inverter a lógica e criar instrumentos de assegurar o direito do cidadão ir aos espetáculos, adquirir bens culturais e participar da vida artística do país.
Na outra ponta, há que se buscar a sustentabilidade da produção cultural brasileira, hoje totalmente dependente do dinheiro público. Imagine se acabássemos com a meia-entrada. Será que as salas de cinema ou teatro teriam uma ocupação maior? Será que a arte brasileira cumpriria o seu objetivo que é chegar ao público? Não é pra isso que o Estado brasileiro a apóia?
É preciso acabar com a hipocrisia. Produzir cinema e teatro no Brasil há muito que não é apenas uma “atividade privada”, embora, no caso do cinema, em grande parte a exibição ainda o seja. Num olhar sobre todo o ciclo (produção, distribuição e exibição), porém, o Estado tem se feito presente de maneira crescente, incentivando a construção de salas e estabelecendo quotas de tela. Neste sentido, percebemos que todo o ciclo cinematográfico é uma atividade pública também, sendo financiada pelo Estado e consolidada pelo interesse público.
Consideremos, portanto, que o ciclo não se encerra na exibição do filme ou apresentação do espetáculo, mas no seu “consumo”. Se o Estado participa robustamente da produção, por exemplo, por que sua participação em outras etapas seria uma ingerência indevida? Percebamos que o apoio do Estado ao cinema nacional é, muitas vezes, disfarçado pela renúncia fiscal que joga os holofotes do financiamento sobre as empresas que adiantam o dinheiro e viram sócias do empreendimento cultural, e não para o público, real financiador e interessado final das obras que vemos por aí.
A gestão pública de cultura no Brasil melhorou muito nos últimos anos, mas ainda há muito que avançar. Uma das necessidades é melhorar a política de financiamento, dar consistência ao Fundo Nacional de Cultura e ao orçamento do MinC, descentralizar produção e exibição, estimular a desconcentração do “consumo cultural”, fomentar a pesquisa em novas linguagens, impedir que os preços dos teatros e cinemas subam acima da inflação e pôr fim a essa falácia de que o negócio é privado. Em outras plagas talvez seja. Aqui, não.
Glauber Piva - Foi Secretário de Cultura de Votorantim (2001-2004) e Secretário Nacional de cultura do PT (2003-2008).
www.glauberpiva.blogspot.com




